Como melhorar os resultados de inovação e pesquisa da UFOP

Não podemos falar do desenvolvimento econômico e social da região dos inconfidentes sem falar dos resultados de inovação e pesquisa da UFOP, a Universidade Federal de Ouro Preto.

Presente, hoje, em 3 municípios bastante dependentes da exploração minerária (João Monlevade, Mariana e Ouro Preto), esta universidade representa um importante setor para a diversificação econômica, tanto dessas cidades, como do Estado como um todo.

Por outro lado, a colocação da UFOP em diversos rankings nacionais e internacionais, juntamente com dados locais, indicam que as possibilidades desta ferramenta pública podem ser ainda pouco exploradas.

Neste post tentaremos compreender os dados de inovação e pesquisa da UFOP e de outras universidades públicas da região, buscar uma tradução deles para o cenário local e desenhar caminhos onde as comunidades possam colaborar para a ampliação dos resultados das instituições de ensino federais da região do quadrilátero ferrífero.

Os resultados da UFOP nos rankings universitários

A ideia deste texto surgiu depois da publicação do RUF 2024, o Ranking Universitário do jornal Folha de São Paulo. 

Essa lista leva em conta 203 universidades brasileiras, públicas e privadas, a partir de cinco indicadores: pesquisa, internacionalização, inovação, ensino e mercado.

Em Minas Gerais, as universidades com melhor posição no RUF 2024 foram: UFMG (5º lugar nacional), UFU – Universidade Federal de Uberlândia (14º), UFV – Universidade Federal de Viçosa (15º), UFLA – Universidade Federal de Lavras (26º) e UFJF – Universidade Federal de Juiz de Fora (30º).

UFOP e UFSJ — Universidade Federal de São João Del Rei, também da região do quadrilátero ferrífero, entram respectivamente em 44º e 61º.

O ponto é que não é apenas no RUF que as universidades locais apresentam uma baixa colocação. Em outras listas, como o QS World University Rankings, do Reino Unido, a UFOP nem aparece entre as opções.

O que a própria UFOP tem a dizer sobre os resultados no RUF

Conversamos a respeito desse tema com a Izabel Cristina da Silva, Coordenadora Administrativa do Núcleo de Inovação Tecnológica e Empreendedorismo – NITE/UFOP, que também é integrante do Valin.

Para ela, quanto à parte de pesquisa, “a UFOP possui 222 depósitos de patentes, sendo 54 patentes concedidas. No âmbito internacional, a UFOP depositou 3 pedidos de patentes e possui uma patente concedida. Desses pedidos, houve, até esta data, 7 licenciamentos de tecnologia, dos quais 2 estão ativos”.

Ela continua: “Nos últimos anos, a universidade tem buscado informar a comunidade acadêmica sobre a necessidade de ter um olhar voltado para os problemas existentes na sociedade, a fim de garantir o atendimento dos requisitos legais para depósitos de patentes. 

Além disso, tem buscado capacitar a comunidade sobre tais requisitos e oferecer treinamento em redação de patentes, para melhorar as condições de patentabilidade dos resultados das pesquisas”.

Ampliando essa questão para outras universidades presentes em cidades de porte semelhante às da UFOP, encontramos no INPI:

  • UFSJ: 244 depósitos de patente 🔺 com 39 concedidas 🔻
  • UFV: 393 de patente 🔺 com 121 patentes concedidas 🔺
Tecnoparq, da UFV: um dos primeiros e mais importantes parques tecnológicos de Minas e do Brasil — Crédito: Centev

No entanto, para a Izabel “é importante considerar que o Ranking Universitário da Folha leva em conta outros aspectos, como ensino, pesquisa científica e internacionalização. Diante disso, a colocação alcançada pela Universidade Federal de Ouro Preto no RUF se deve, também, a esses aspectos”

Pouco impacto na diversificação econômica

Para além das patentes e pesquisas, podemos olhar a importância das universidades públicas, principalmente no âmbito da diversificação econômica, através da conexão de dois eixos do RUF: inovação e mercado.

E neste ponto os resultados da UFOP também não tem sido dos melhores.

Como dito antes, João Monlevade, Mariana e Ouro Preto são cidades ultra dependentes da mineração, mesmo com as possibilidades trazidas por um campus universitário.

As principais empresas de base tecnológica que surgiram na região dos inconfidentes, como Efí Bank, LiaMarinha e Stilingue, ou não foram criadas por alunos da UFOP ou não se desenvolveram em programas de empreendedorismo/incubação acadêmicos da mesma instituição.

Porém, mesmo com todos esses pontos, é possível incentivar as instituições federais de ensino a trazer melhores resultados para as localidades onde estão inseridas.

Caminhos para impulsionar a hélice da educação

Para a Izabel, um caminho de mudança “é investir na qualidade das patentes e na divulgação do portfólio, de modo a favorecer a transferência de tecnologia. 

Em outras palavras, é importante que a quantidade de depósitos e concessões de patentes seja acompanhada pelas transferências de tecnologia e pela formalização de parcerias para pesquisa, desenvolvimento e inovação”.

Além disso, “seria interessante que a Universidade mantenha um diálogo constante com o governo (executivo e legislativo) em todos os níveis, com organizações parceiras e com a comunidade de sua influência, a fim de aprimorar sua capacidade de gestão e interação social”.

Outros pontos que podem ampliar o potencial da UFOP e UFSJ em suas respectivas cidades de atuação, dentro dos caminhos da inovação e da diversificação econômica, seriam a ampliação do diálogo com as comunidades de inovação, assim como a colaboração em ações e projetos em detrimento da concentração.

Nada disso seria uma novidade para quem conhece e utiliza o modelo de quádrupla ou quíntupla hélice de inovação — bem mais moderno e eficiente do que aquele outro, de 3 eixos teorizado antes mesmo da popularização da internet.

Nestes modelos, a comunidade tem igual importância ao governo, mercado e instituições de ensino. 

No entanto, cabe aqui uma observação: em diversos materiais promovidos no Brasil, esta quarta hélice aparece como “sociedade civil organizada”, algo que não está presente no conceito original do framework de inovação, que deveria contemplar também “cultura” e “mídia”.

Dois aspectos presentes em comunidades de inovação.


As universidades públicas são responsáveis por mais de 90% das pesquisas realizadas no Brasil e sua importância vai para além da produção de conhecimento e da capacitação para a inserção das pessoas no mercado.

Porém, as mesmas são ferramentas públicas de grande porte e por isso mesmo, levam mais tempo — e tem mais dificuldade — para realizar mudanças importantes para a sociedade, principalmente aquelas onde estão inseridas.

Utilizar as comunidades locais de inovação como apoio é de suma importância para trazer novas visões de fora do universo acadêmico, criar maior dinamismo e até ampliar a assertividade de suas ações.

É preciso e necessário fazer com que o conhecimento acadêmico saia de dentro dos muros da universidade.